quarta-feira, 25 de agosto de 2010

PROJETO "NOS RENDILHOS DA REDE: TECENDO METÁFORAS PARA UM MUNDO NOVO"

JUSTIFICATIVA DO PROJETO

"As máquinas sempre me fascinaram... a semelhança do relógio, que ajudou os homens a entender o universo em séculos passados, ele (o computador) pode nos ajudar a ter uma visão nova do universo. O computador é (por assim dizer) uma metáfora... assombra-me menos por suas potências técnicas que por suas potências filosóficas. Quem vê o universo através do computador vê um texto literário construído com símbolos" (ALVES, 2001)[1].

O computador é um objeto danado (RAMOS, 2004)[2], não pode ser visto com como um objeto qualquer, antes de receber aquele toque especial para ser ligado ele já se mostra encantador pela sua própria história. Não importa se está conectado a rede mundial de computadores, não interessa, nem mesmo, se está plugado em uma tomada qualquer. É preciso, inicialmente, fazer de conta que é uma peça de museu, perceber os “rendilhos” de sua história, a “tecelagem” que compõe a sua existência.

É preciso, em outras palavras, fazer o objeto “se danar”, se transformar em metáfora, em símbolos, em analogias. É necessário, mais do que nunca, fazer o objeto (micro) brincar de ser mais do que o que ele aparenta ser. Foi essa a mensagem que Rubem Alves nos passou ao escrever “Sobre relógio e computadores” e “Sobre computadores e o universo”, os objetos são danados, podem representar os paradigmas sociais de uma época, as utopias, os projetos, as ambições.

O relógio de pulso, por exemplo, não simbolizava apenas o passar das horas, representava o mundo da industria e da ciência, o espetáculo do progresso e da razão, o mito da verdade absoluta, a sacralização do tempo, a mecanização das coisas e das pessoas, a dessacralização da natureza; a fragmentação e a hierarquização do conhecimento e da vida. Mais do que uma máquina, o relógio é o símbolo de uma visão “cartesiana” produzida pela ousadia de Bacon, Descartes, Newton e tantos outros que tentaram decifrar os códigos matemáticos do universo.

O computador, assim como o relógio, simboliza o universo, representa, no século XXI, a crise de um paradigma (cartesiano), o desenrolar de um modelo de sociedade (modernidade) e de uma ciência (dogmática). É o filho querido de um planeta que fervilha em guerras, de um mundo que “vê”, bestializado, milhões de pessoas morrerem por causa das descobertas científicas que foram utilizadas para matar. É filho de uma sociedade que viu milhões de pessoas mutiladas, violentadas, excluídas do acesso a vida, estupradas por pessoas e países ditos civilizados.

Mas, o computador, indiretamente, também é filho (talvez bastardo) das teorias de cientistas e historiadores da pós-modernidade, é afilhado das novas descobertas de Einstein e Fritjof Capra, da teoria da complexidade de Edgar Morin, da física quântica, etc. Se Bacon, Descartes, Newton, e outros, mexeram nas estruturas sociais quando descobriram “leis naturais”, Einstein (e tantos outros) remexeu quando questionou tais leis. Não foram apenas as leis físicas ou químicas que se tornaram relativas, todos os ramos do conhecimento passaram a desconfiar, pelo menos um pouco dessa mitologia científica.

Ao utilizar a Informática como instrumento de aprendizagem criamos, na medida do possível, uma conexão que funciona como uma teia, uma nova metáfora que une o micro (computador) ao macro (universo). Estabelecemos, de forma científica e de forma poética, uma gancho entre a sociedade e os objetos que ela produz (computador, impressora, data-show, internet, etc). Contudo, como sugere Luiz Carlos Pais, não podemos acreditar que os objetos são neutros, que resolverão, por si só, os problemas da educação (determinismo tecnológico). O computador é uma máquina e, mais do que qualquer outra máquina, pode simbolizar o individualismo, o super-ego, o consumismo que também fervilha no século XXI. É necessário perceber outras simbologias, construir outras metáforas, perceber a complexidade da vida e do mundo. Não podemos voltar atrás, a realidade está na nossa porta, vivemos, mais do que nunca, no mundo da tecnologia e da globalização.

Ao ligar o computador, ao apertar o botão da CPU e do monitor, percebemos, em poucos minutos, a concretização dessa metáfora poético-científica. Como num “passe de mágica”, que na verdade é um passe de ciência, vemos um sistema de informação complexo, percebemos uma montanha de textos que jamais haviam se encontrado: oceanos de caracteres que superam (em tamanho) as maiores bibliotecas do mundo, textos imagético-discursivos (fotografias e imagens) que não caberiam em nenhum álbum, textos auditivos e visuais (músicas, vídeos, etc) que impressionam qualquer colecionador de CD ou de filme. Conteúdos multidisciplinares que, na medida do possível, podem desenvolver as competências necessárias a vida e ao trabalho.

Mas, a internet é um mar, parafraseando os pensadores da física quântica: é um oceano de possibilidades, é preciso aprender a lidar com os sites, não podemos transferir as “brincadeiras” que fazemos em casa ou no siber para o laboratório, o máximo que podemos fazer é aproveitar a experiência de quem já navegou por outros caminhos e ensinar as artes e as técnicas de navegação para quem não conhece o mar da rede mundial de computadores. É preciso sentar na beirada dessa rede e procurar, com paciência, os rendilhos do conhecimento. É necessário, para não se perder no caminho, “construir uma bússola”( planejamento escolar), refletir com o grupo, elaborar sínteses ou fazer questionamentos sobre os textos (escritos, sonoros, visuais, audio-visuais) encontrados nos fóruns, nos chats, nos e-mails, nos blogs, nas listas de discussão etc. Mas, como sugere Luiz Carlos Pais, não podemos esquecer os temas específicos de cada área, não podemos ignorar o plano de viagem (aula) dos professores, precisamos, indispensavelmente, conversar com os marinheiros e com artesãos da educação, aprender, na prática, novos instrumentos e novos rendilhos.

[1] ALVES, Rubem. “Sobre relógio e computadores” e “Sobre computadores e o universo”. IN: __________, Entre a ciência e a Sapiência: o dilema da educação. 6° Ed. São Paulo: Loyola, 2001. Pag. 131-141.

[2] RAMOS, Francisco Régis Lopes. A Danação dos objetos: o museu no ensino de história. Chapecó: Argos, 2004.

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